Brumadinho: Quando o crime se veste em pele de acidente

Rompimento de barragem abre a caixa de pandora da Vale

Mais de 200 desaparecidos e 60 mortos até o fechamento dessa matéria (28/01/2019). Este é o soldo maligno que pesa sobre a empresa Vale, mais uma vez protagonista de um crime social e ambiental sem precedentes. O que acontece hoje em Brumadinho, cidade localizada na zona metropolitana de Belo Horizonte, é um eco diabólico que ressoa na sociedade brasileira, em especial no estado de Minas Gerais e revela muito sobre a irresponsabilidade que a empresa opera sobre seus serviços.

Este ano, a Vale completa seus 22 anos de privatização com mais uma catástrofe evitável em sua história. A época, a gestão FHC privatizou a empresa pelo valor de R$3,3 Bilhões que, comparado com os R$ 100 Bilhões que as suas reservas minerais valiam à época, a negociata foi uma pechincha que apenas beneficiou as acionistas que tomaram maior parte do investimento. Entre esse rol de beneficiários estão o banco Bradesco, a japonesa Mitsui e a ianque Black Rock Inc, uma das majoritárias em ações de controle da Vale. Nestas duas décadas de funcionamento privatizado, se acumulam processos e protestos contra as condições de emprego que a mineradora impõe sobre seus funcionários. Para além disso, soma-se ainda a agora constante situação de perigo que a infraestrutura falha da Vale oferece para conter os dejetos da sua atividade mortífera.

 

Negligências

Uma barragem, na atividade mineira, deve ser uma estrutura firme, necessária quando há contaminação do solo e das águas pela presença de minérios pesados, como ferro, calcário, manganês e bauxita. Júlio César de Pontes, Doutor em Recursos Naturais pela UFCG, comenta em artigo publicado em Março de 2013 para a revista acadêmica POLÊM!CA, que “a maioria da mineração do Brasil (…) contaminam as água através da lama; sendo necessário construção de barragens para o controle da contaminação, ocorrendo também a poluição química provocada pelo tratamento de minério ou pela passagem da água pela área contaminada.” Essas estruturas, quando rompidas, demonstram explícito descaso com a conservação das barragens, podendo estas operar em maior volume de carga do que a recomendada, por exemplo.

Com base em protocolos internos sobre a avaliação da barragem rompida, a empresa vale lançou nota de esclarecimento que nega uma definitiva resposta para o motivo de tamanho crime contra a sociedade de Minas Gerais e brasileira em geral. (http://www.vale.com/brasil/PT/aboutvale/news/Paginas/Esclarecimentos-sobre-a-barragem-I-da-Mina-de-Corrego-do-feijao.aspx)

 

Mariana

O crime de Brumadinho acontece apenas três anos depois do que é considerado o maior crime ambiental já registrado em território brasileiro. Os estimados 39 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos vazados após a derrocada da barragem de Fundão, deixaram um mar de lama e destruição, amargando 19 mortes para a conta da mineradora Samarco, controlada pela Vale em parceria com a multinacional BHP Biliton. Até os dias de hoje, não se tem uma resolução de indenização para as famílias sobreviventes que perderam seus lares na delinquência da mineradora.

Diante dos fatos, é certo que a política de privatizações se demonstra no mínimo falha, não contemplando a classe trabalhadora, que deveria ser a maior beneficiária de direitos, tendo inclusive sua dignidade resguardada pelo estado. O exemplo que a Vale desde sua privatização mostra ao mundo, com dois crimes ambientais apocalípticos e nenhum estorno significativo para vítimas de suas incoerências, só cimenta a certeza na população sobre as intenções reais que o capitalismo selvagem possui para as sociedades, sendo que o Brasil hoje, mais do que nunca, vive a mercê deste sistema antidemocrático e assassino. O SINDURCA se solidariza com as vítimas do genocídio da Vale em Brumadinho, reiterando os esforços em denunciar a criminalidade desta empresa que com sua política extrativista rouba as riquezas e as vidas da sociedade brasileira.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *