OPINIÃO | Não somos apenas espectadores da tragédia. Nem seremos da farsa

Prof. Darlan Reis Jr (Historia – URCA)

Vivemos uma tragédia ou uma farsa, ou ambas?

“Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa. Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma caricatura ocorre nas circunstâncias que acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário! Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.¹

Essa é famosa introdução de “O dezoito brumário de Luís Bonaparte”, de Karl Marx. Nesta obra, Marx analisa o processo histórico do golpe de estado realizado na França, por Luís Bonaparte, sobrinho do famoso Napoleão Bonaparte (1769-1821), que anos antes, em 1799, havia perpetrado outro golpe, na referida data ( o 18 Brumário correspondia aos dias 09 e 10 de novembro de 1799, segundo o calendário gregoriano). Assim, Napoleão Bonaparte, em 1799, instituiu o “Consulado”, passando a governar a França como “consul”, e posteriormente, no ano de 1804 como “imperador”.

No ano de 1851, mais precisamente em 02 de dezembro de 1851, Carlos Luís Napoleão Bonaparte (1808-1873), sobrinho do famoso Napoleão, deu um golpe de estado quando era presidente da França, proclamando-se “Napoleão III”. O que levou Marx a analisar os acontecimentos, e no ano de 1852 publicar a referida obra, com a célebre introdução. Marx explica de modo categórico como um país passa de uma situação revolucionária anterior, para uma condição de golpe de estado, perpetrado pela burguesia francesa, com o auxílio dos militares. A burguesia francesa sacrifica a república e permite que o próprio presidente em exercício, desse um golpe, se tornasse imperador e tentasse parecer à nação como a continuidade da época de seu tio. Inclusive com o título de “imperador”.

É o que ficou consagrado como golpe de estado bonapartista.

Apesar do sucesso no golpe, Luís Bonaparte nunca chegou aos pés da capacidade política de seu tio, verdadeira “farsa” como bem afirmou Marx. No entanto, a análise feita por Marx demonstrou como a apatia política, a crença apenas nas “instituições burguesas”, na luta parlamentar como o centro da atividade política, são graves erros para as classes populares. Erros que não podemos cometer no Brasil, em pleno século XXI.

A tragédia

No momento em que o Brasil atravessa a pandemia de COVID-19, com 438.238 casos confirmados e 26.754 mortes² aos 29 dias de maio de 2020 [Atualização de 03/06/2020: 555.383 casos confirmados e 31.199 mortes], sem contar a evidente subnotificação, ainda temos que conviver com as ameaças do governo fascista de Jair Bolsonaro e seus seguidores, acusados de montarem uma rede de criação e difusão de fake news, de criarem milícias que prometem “ucranizar” o país (ucranizar no sentido de eliminar fisicamente toda a Esquerda).

Além disso, parte das classes médias, apoiadas por frações empresariais, realiza protestos e carreatas em defesa da morte, com um discurso travestido de “defesa da economia”, num verdadeiro festival de horrores que envergonharia até os escravistas do século XIX. Nesse ambiente, o governo genocida incentiva a volta de todas as atividades econômicas e sociais em plena pandemia, e investe na retórica golpista. Ainda faz o discurso da campanha de 2018, com lemas reacionários – afirmando-se como defensor da “família, de Deus” e de supostos valores morais superiores, quando na verdade, é acusado de corrupção, envolvimento com milícias, não só o presidente, bem como membros da sua família.

A farsa

O genocida evoca a mentira histórica, de um suposto passado de glórias vividas exatamente durante a Ditadura Militar Empresarial (1964-1985), exalta a tortura, mente sobre os dados econômicos e sociais do período. E seus seguidores fascistas nas ruas, proclamam querer a volta da ditadura, do Ato Institucional número 5, AI-5, se arvoram no direito de exigirem a total concentração de poderes nas mãos do genocida.

Será que isso é possível? Ou melhor, será que permitiremos que essa farsa ocorra? Penso que não, pois não somos e nem seremos meros espectadores da farsa, como não estamos sendo da tragédia. A indignação das classes populares no momento está represada, devido à tragédia humanitária em que vivemos. A catástrofe social foi ampliada pela pandemia, a desigualdade aumentou.

Mesmo assim, as iniciativas de solidariedade continuam ocorrendo na sociedade. Também ocorrem as manifestações de rua antifascistas, impedindo os atos fascistas de ocorrer. Ao mesmo tempo, diversas organizações e partidos políticos impulsionam a luta pelo “Fora, Bolsonaro”, acumulando forças para as próximas batalhas. O sentimento de que este governo não presta e de que é preciso fazer alguma coisa para detê-lo, aumenta a cada dia. De modo que, mesmo diante da tragédia pela qual passamos, é preciso canalizar toda a indignação e exigir a saída do governo fascista.

Não somos meros espectadores, não seremos meros espectadores.

Referências:
¹ MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 21.
² https://coronavirus.jhu.edu/map.html. Acessado em 29 de maio de 2020.

Fonte: intelectualorganico.com

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